Comunicação é parte essencial do convívio humano em sociedade. Seja por meio de sons, gestos, símbolos, expressões ou outro recurso, as pessoas fazem contato com as outras utilizando uma linguagem. Mas, além de ser o meio de as pessoas se comunicarem, a língua representa a história de um povo, a maneira como ele enxerga a vida e a relação com o mundo exterior.

Os povos indígenas também fazem parte dessa lógica. Com o passar dos anos, línguas de povos nativos de Mato Grosso do Sul passaram a estar ameaçadas de extinção, por fatores como a imposição do português como idioma oficial e a ausência de políticas públicas contínuas. Por isso, a preservação dos idiomas indígenas funciona como uma reafirmação de identidade dos povos, como explica Marlon Leal Rodrigues, professor linguista da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul).

“Para os indígenas, é uma reafirmação da identidade. Não que eles não falem o português, longe disso, mas eles querem reafirmar a identidade deles, estar mais em contato com seus ancestrais, porque a língua vem se transformando a cada tempo”, explica o professor.

Língua como lente para ver o mundo

Conforme Marlon Leal, o estudo da língua permite perceber a forma como um povo manifesta a sua cultura. “É a história do povo. A relação com os objetos, a relação de nomear os animais, a natureza. Esse ‘estar no mundo’ é muito peculiar”, afirma.

O professor utiliza uma metáfora para mostrar a importância da linguagem para o ser humano. “Imagina um computador. Tira o programa dele. Ele é o quê? Nada. O programa é a linguagem dele. Se você tira a linguagem do homem, ele é o quê? Nada. É aí que está o belo, a descoberta de que a história do homem está dentro da língua”, conta.

Marlon relembra a hipótese de Sapir-Whorf, proposta na década de 1930 pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, a qual afirma que as pessoas vivem suas culturas em universos mentais diferentes expressos pelas línguas que falam. “Cada língua tem uma maneira diferente de olhar para o mundo. Imagina uma lente. Uma língua ‘X’ com lente azul, você vê o mundo azul. Uma lente ‘Y’ mais azul, você vê mais azul”, exemplifica.

“A sintaxe do português não é a mesma do inglês, por exemplo. Não é capricho, é maneira de olhar o mundo. Ali, estão a cultura, os gritos de guerra, as orações, esse aspecto filosófico do mundo, e isso passou a ser visto como patrimônio”, completa.

Em MS, idiomas indígenas resistem

Segundo dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados em outubro de 2025, o Brasil possui 295 línguas indígenas de 391 etnias distribuídas pelo país. Somente em Mato Grosso do Sul, são 48 comunidades, de 139 etnias, que ainda preservam sua linguagem.

O número representa um aumento de quase 30% em relação a 2010, quando o Censo identificou 37 línguas indígenas em MS. Os idiomas mais falados no Estado são o Guarani Kaiowá, Terena, Guarani Nhandeva, Guarani e Kadiwéu, que, juntos, totalizam cerca de 58 mil falantes.

Por outro lado, cresceu também o número de indígenas que falam português em casa. Em 2010, o uso do idioma era feito por 58,6% das pessoas que viviam em terras indígenas, índice que passou para 64,7% em 2022.

Apesar de ser a 2ª língua com mais falantes em Mato Grosso do Sul, o idioma Terena é um dos que têm perdido o protagonismo dentro da própria cultura, segundo o professor Marlon. “Os Terenas, por exemplo, os jovens já não falam mais. Falam um pouco ou só entendem. Ou falam, mas não escrevem”, afirma o linguista, que realizou trabalhos acadêmicos em aldeias da etnia.

Repressão histórica

A possível perda da língua para um povo pode ocorrer por diversos fatores, e um deles está atrelado à repressão histórica imposta aos povos nativos que se comunicavam por seu idioma. “A perda da língua não é só perda, é você virar estrangeiro na língua do outro […] Nós visitamos cerca de dez aldeias, para levantar dados, e foi um momento muito emocionante, muitos indígenas choraram. Falaram: ‘Olha, professor, eu era proibido de falar minha língua. Minha mãe me proibia de falar minha língua’. Quem não falava português, ficava escondido”.

A repressão acontecia pois os falantes eram marginalizados e excluídos por falar seu próprio idioma. A linguagem, conforme explica o professor, é uma das principais formas de conhecer o outro. “Ao falar, eu sei, mais ou menos, a sua religião, sua posição política, seu grupo social, nível cultural, de qual região do país você é. Ao falar, você se denuncia ou se apresenta”.

O professor também explica que não há, necessariamente, um resgate da língua, mas sim um processo de ressignificar o que já foi vivido. “O que já foi, já foi. Você reinventa daqui pra frente. Você não vai reviver o que eram seus pais, seus avós, mas você ressignifica essa trajetória”.

O fato de priorizar o português, por exemplo, é também uma maneira de negar a língua indígena, que, por consequência, nega a história de um povo. “Um livro indígena, por exemplo, não nega o português, mas reafirma a própria língua. Elas não estão competindo. Mas a língua indígena foi negada e, quando isso acontece, não nega apenas o falar, você nega a história”.

O nascimento da língua

Com o passar do tempo, as línguas passam por mudanças pra se adaptar ao contexto social encontrado por um grupo. O linguista demonstrou como ocorre o processo de incremento de uma nova palavra a um idioma quando esteve em uma das aldeias durante a pesquisa.

“Eles cobraram que não tem a palavra ‘ventilador’ em língua terena. Respondi: ‘E daí? Inventa’. O que é o ventilador? Exercício ao que produz vento direcionado. Então, deve ter alguma coisa na língua que fale disso, de vento, de direção”, relatou.

O objetivo era explicar a linguagem de maneira técnica, como a língua funciona com o uso de radicais, palavras e expressões próximas, para que os próprios falantes possam ensinar o idioma futuramente. “A gente pensa que tá ensinando, mas não. Estamos passando, mas de maneira técnica, para eles entenderem o funcionamento da língua. Aí eles vão ser pesquisadores da própria língua, porque ser falante é diferente”.

Marlon também usa exemplos de objetos que não existiam antigamente na língua portuguesa e que precisaram ter seus ‘nomes’ criados a partir de outras palavras. “Tem o exemplo da televisão. Quando criaram, era só uma caixinha. ‘Tele’, do grego, e ‘visão’, do latim, juntas, significam ver à distância. Televisão é isso. O celular também não existia. Era um telefone à distância, então pegaram o nome de ‘célula’, porque era um conjunto. Na língua, a gente inventa palavras todo santo dia”.

Além da criação de novas palavras, também é possível que surjam novos idiomas por completo. Esse fato acontece, inclusive, em Mato Grosso do Sul, segundo o linguista, na fronteira com o Paraguai. “Está nascendo uma nova língua aqui em . Ver isso é a coisa mais rara que tem. É uma síntese entre o português, o guarani e o espanhol; é o ‘jopará’. E como nasce? Espontaneamente”, conta.

A língua nasce do encontro de três grandes culturas, começa a ser falada nas residências e depois passa pela escola. A própria palavra ‘jopará’ significa mistura ou mescla, idioma que se tornou mais utilizado ao juntar dialetos e expressões das línguas faladas na região fronteiriça.

Protagonismo no mundo acadêmico

Com o propósito de manter as línguas indígenas cada vez mais vivas entre os povos, há a necessidade de ensinar os idiomas em escolas, universidades e projetos. Segundo Marlon Leal, existe a expectativa de criar um curso de Letras na língua terena.

“É um momento de muita euforia, ansiedade, porque é tudo muito novo. Causa um pouco de estranhamento ter curso de Letras em língua indígena. Mas se tem língua portuguesa, língua inglesa, espanhola, por que não?”, comenta.

A ideia, segundo o linguista, é que o curso seja assim como qualquer outro curso de Letras, com o estudo da história da língua, sintaxe, morfologia, fonética e literatura. Como sonho ainda mais distante, há também a vontade de criar um mestrado em língua indígena. Marlon explica como deve funcionar o processo para a criação do curso.

“A gente organiza as informações, sistematiza e manda para a comissão de viabilidade. Depois de provado como viável, a gente monta outra comissão, de elaboração de projeto. Queremos terminar a missão do projeto em no máximo um mês”, conta. Depois, a demanda deve passar por órgãos jurídicos e, em cerca de dois ou três meses, pode ser concretizada.

“A gente acha que dá para esse ano ainda soltar um edital, tem que ver a demanda dos órgãos internos. Mas a gente espera que no começo desse ano que vem já tenha curso. Ou no primeiro semestre ou no segundo semestre”.

O curso, inclusive, deve contar com falantes nativos da língua terena no corpo docente, mesmo que não sejam especialistas. “Vão dar aulas os especialistas que tiverem língua terena, claro, mas também aquele ancião que não tem curso. É notório saber. A literatura oral, narrativa oral, os mitos, isso tem um outro valor de registro”, explica.

“Ninguém sabe mais a história do seu grupo do que aquele ancião. A história do mito, da reza, das plantas, a mística que tem com as plantas. Nenhum doutor sabe. Quem sabe é esse ancião e ele vai dar aula também nesse curso. Boa parte da cultura está com eles”, completa.

Conforme o linguista, a ideia é que, futuramente, apenas indígenas possam ensinar sobre suas próprias línguas. Isso porque a maneira do ensinamento ser repassada é diferente quando ocorre por uma pessoa inserida também no contexto, com o chamado local de fala. “Nós linguistas pesquisamos as línguas dos outros, mas temos que ensinar a pesquisar a língua dele. Porque você falar do outro é uma coisa, mas o outro falar dele é outra coisa. Ele fala da perspectiva dele”, afirma.

 

FONTE: MIDIAMAX