O que o brasileiro pensa quando fala e saboreia um bacon? A resposta pode ajudar a explicar um dos movimentos que a suinocultura de Mato Grosso do Sul vem desenvolvendo para aproximar ainda mais a carne suína do consumidor e se chama “Baconlogia”.
Orgulhosos desta construção, a Asumas-MS (Associação Sul-Matogrossense de Suinocultores) quer propor algo semelhante ao apetite americano, que inclui o alto consumo deste ingrediente em sua cultura gastronômica.
Sendo assim, cerca de 300 produtores rurais e criadores de suínos, além de entidades do agronegócio, se unem para compreender os hábitos de consumo e estimular, ainda mais, o interesse por outras formas de apreciar a carne suína.
Ou seja, no exterior os “pig lovers” já estão consolidados e, por aqui, tem pessoas estudando e qualificando o mercado para deixar muita gente apaixonada por esta proteína. E o bacon, que já ganhou espaço em diferentes preparações, pode ser também uma porta de entrada para cortes como bisteca, lombo, costelinha e filé suíno.
O Jornal Midiamax, para explanar o movimento, esteve presente na terceira edição do Fórum de Desenvolvimento da Suinocultura do MS, que ocorreu no último mês de setembro, em Dourados, região sul do Estado.
Do paladar a exportação, especialistas realizaram um panorama e ainda divulgaram o Censo da Suinocultura MS 2026 (leia abaixo), ação inédita da Associação para mapear o perfil, identificar as demandas reais e direcionar os investimentos estruturais da atividade.
Ampliação do consumo
Para Celso Philipe, um dos diretores da Asumas, a “Baconlogia” integra o trabalho desenvolvido pela cadeia produtiva para ampliar o consumo da carne suína no país. E o termo configura toda a estratégia de comunicação do setor, aliada, claro, a um “toque de criatividade”.
“A intenção é, sem dúvidas, chamar a atenção para o consumo de bacon e aproximar a cadeia produtiva do público, principalmente, porque este é um dos produtos que mais está sendo buscado hoje, como já é nos Estados Unidos e na Europa”, iniciou Celso.
Neste sentido, o diretor reitera que a ideia é aproveitar o interesse do consumidor por este produto para apresentar, de maneira mais ampla, algumas possibilidades da carne suína. Neste contexto, a sustentabilidade se torna exigência e oportunidade econômica.
“É um momento em que o suinocultor entende que sustentabilidade não é custo e nem exigência, então, acaba sendo uma oportunidade de permanecer no mercado e, principalmente, captar financeiramente isso. Para se ter ideia, Mato Grosso do Sul possui aproximadamente 140 mil matrizes ativas e cerca de 310 suinocultores, com novas granjas em construção e escala de produção acima da média nacional em nossas propriedades”, pontuou Philipe.
Aliás, como um destes produtores do segmento, intercalando com a área florestal e bovinocultura de corte, na Estância Colorada, Celso teve a sua fazenda reconhecida nacionalmente em uma premiação de responsabilidade ecológica, considerando aspectos sociais, ambientais e econômicos. “Orgulho deste trabalho”, definiu o produtor rural, que também é medico veterinário.
No entanto, antes de chegar à mesa, a carne suína tem um longo processo, o que torna positiva a disponibilidade de grãos que temos por aqui, principalmente, porque a alimentação representa uma parcela significativa do custo de produção e esta conexão movimenta a economia e fortalece o desenvolvimento regional.
Neste modelo, entram também as cooperativas e as agroindústrias, as quais reduzem os riscos enfrentados pelo produtor. Outro diferencial apontado é a condição sanitária do Estado e a possibilidade de ampliação dos mercados, como é o caso da Rota Bioceânica, com estrutura e logística de acesso aos mercados internacionais.
Setor estratégico para MS
Ao Jornal Midiamax o consultor de mercado da ABCS (Associação Brasileira dos Criadores de Suínos), Iuri Pinheiro Machado, destaca que Mato Grosso do Sul se tornou referência pelo crescimento da produção nos últimos anos. Segundo ele, um dos fatores determinantes foi a parceria entre poder público, produtores, cooperativas e agroindústrias.
“É uma parceria público-privada que funciona muito bem e é um incentivo que o Estado fez aqui para o crescimento da suinocultura, junto com os produtores e as agroindústrias. Fizeram uma expansão, uma grande agregação de tecnologia na questão também de bem-estar animal”, afirmou Iuri.
Ainda falando em avanço, Pinheiro cita o aumento das propriedades. “Embora o número de produtores não tenha crescido na mesma proporção do plantel, a ampliação da produção trouxe impactos para a economia, com geração de empregos, renda e exportações”, ressaltou.
Expansão da carne X Valorização
Outro produtor rural e também diretor da Asumas-MS, Alessandro Boigues, destaca o papel das agroindústrias e dos produtores neste processo. Para ele, a expansão precisa ser acompanhada de um trabalho permanente de valorização da carne suína. Atualmente, o que ocorre é que, mesmo com o crescimento da produção, o consumo ainda é marcado por diferenças culturais entre as regiões brasileiras.
Em outros estados, como Minas Gerais e os da região Sul, a tradição da carne suína é maior. “No Brasil a carne suína tem muitos mitos e questões culturais. Tem regiões que não têm o hábito e comem rotineiramente”, explicou, dizendo ainda ser necessária uma campanha permanente para desmistificar uma concepção “de décadas”.
“Antes existia a questão cultural de ser uma carne de risco, que podia dar doença, que não pode ser feita mal passada, que era uma carne de alto teor de colesterol, faz mal para o coração, então imagina o tanto de coisa impregnada na cultura durante muitos anos. E vamos quebrar isso”, reiterou.
Boigues fala que, desta maneira, o trabalho também passa por mostrar ao consumidor a variedade de preparos possíveis, já que a linguiça, salame e o presunto, por exemplo, já fazem parte do cotidiano de muitas famílias, mas outros cortes ainda não ganharam o devido espaço nas refeições e muitos, quando comem, às vezes nem sabem que estão degustando carne suína.
Para endossar este raciocínio, Iuri Pinheiro argumentou que a carne suína foi a proteína que mais ganhou espaço na mesa do consumidor brasileiro, nos últimos anos. O consumo per capita, conforme os dados apresentados por ele em nome da ABCS, é que o consumo anual passou de 15 quilos para mais de 20 quilos, em cerca de uma década.
“Nenhuma outra carne cresceu tanto, então, o Brasil tem essa característica na suinocultura nos últimos anos, de ter aumentado sua participação no mercado doméstico e no mercado externo também. Além do mercado interno, o Brasil também ampliou sua participação nas exportações e o país passou a ocupar a terceira posição entre os maiores exportadores de carne suína, ultrapassando o Canadá”, destacou.
Segurança sanitária
O presidente da Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal) do Mato Grosso do Sul, Daniel Ingold, discorreu sobre a mudança na percepção do consumidor e disse que, tal fato, depende da disseminação de informações sobre como a produção evoluiu. Na ocasião, também ressaltou que o Órgão atua na fiscalização e na garantia da segurança dos alimentos.
“É demonstrar a sanidade e a qualidade do alimento. E é esta garantia na segurança que vai proporcionar um aumento do consumo da carne e transformação no hábito. O que vejo é que a produção atual é muito diferente daquela praticada décadas atrás, quando ainda existiam sistemas de criação com condições sanitárias muito inferiores às atuais”, afirmou.
Ingold também ressaltou que a engorda moderna de suínos é climatizada e com “uma condição sanitária invejável”, colocando a suinocultura muito à frente, em termos de segurança do alimento. Ao mesmo tempo, existe a melhoria do serviço veterinário desenvolvido nos últimos anos, incluindo processos de auditoria, estrutura, contratação de profissionais e ações de biosseguridade, e desafio de comunicar esta evolução ao consumidor.
“Talvez o que falta é levar isso a nível de informação e é por isso que o trabalho de vocês é muito importante. É levar essa informação para a sociedade, para que se quebre esse paradigma”, opinou o presidente.
Cooperativismo une
Além da disseminação de conhecimento, vale destacar a lógica do cooperativismo, presente em diversas cadeias do agronegócio de Mato Grosso do Sul.
É o caso, por exemplo, da ASPNP (Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores de Novilho Precoce), existente desde 1998 na Capital sul-mato-grossense, com foco na valorização da carne bovina, por meio de bonificações na comercialização dos animais, parcerias estratégicas, além, é claro, da representação institucional. Mais recentemente, em 2025, houve a criação da NovilhoCoop (Cooperativa da Novilho Precoce MS), iniciativa voltada ao fortalecimento da pecuária de corte no Estado e com apoio técnico, jurídico e de governança da Organização das Cooperativas Brasileiras – Seção MS (OCB-MS).
Alexandre Guimarães, superintendente da Associação, ressalta queo cooperativismo permite aos produtores ampliar o poder de negociação, tanto na comercialização dos animais quanto na compra de insumos. “A grande missão é ajudar o produtor a comercializar melhor os animais dele, então a gente se junta, se une para poder conseguir entregar para o parceiro frigorífico um animal de mais qualidade, com um grande volume e também uma negociação melhor, um retorno financeiro melhor para o nosso associado”, explicou ao Midiamax.
Além de facilitar a comercialização, atua na compra coletiva de insumos. Com o ganho de escala proporcionado pela participação conjunta dos associados, torna-se possível negociar condições comerciais mais vantajosas. Atualmente, segundo Alexandre, a Cooperativa reúne mais de 650 associados e cerca de 1,3 mil propriedades em Mato Grosso do Sul. A atuação também alcança outros estados por meio das “cooperativas irmãs” Novilho Tocantins e Novilho Goiás.
Entre os eventos de destaque mais recente, a NovilhoCoop esteve no Dia C (Dia de Cooperar) de 2026, realizado no último dia 29 de agosto, no Cotolengo Sul-Mato-Grossense, em Campo Grande. Em sua estreia oficial na mobilização solidária do cooperativismo brasileiro, a entidade levou uma mini fazendinha ao local e promoveu atividades lúdicas, aproximando o público do universo rural. “Foi uma honra participar. É um evento que sempre reforça a importância da união entre cooperativas e comunidades”, destacou o superintendente.
Esse mesmo modelo de união e força no campo move a cadeia produtiva de proteína animal do estado, que conta com o suporte das gigantes (Aurora Coop, Cooperalfa, COOASGO e C.Vale), desde o fornecimento de insumos ao processamento final da carne.
O grande motor do setor é São Gabriel do Oeste, onde a Aurora Coop investiu R$ 350 milhões para modernizar seu frigorífico (FASGO) e elevar a capacidade de abate para 5 mil animais por dia, enquanto cooperativas parceiras impulsionam a produção com novas fábricas de ração em Sidrolândia e o fortalecimento de grãos na região norte.
‘Player extremamente rentável’, diz OCB-MS
Natural de Santa Catarina, estado com tradição na produção de carne suína e embutidos, Celso Ramos, presidente do Sistema OCB-MS, destaca ao Midiamax sua relação pessoal com a proteína e a importância de ampliar o reconhecimento do trabalho realizado pelos suinocultores.
“Nós do sistema de organização das cooperativas brasileiras, em MS, temos feito um trabalho muito forte de incentivar os produtores rurais do estado e, dentro desta diversidade, a suinocultura tem sido um player de mercado, um produto extremamente rentável. Mesmo dado as dificuldades, disponta como uma das possibilidades extremamente importantes, com desenvolvimento, localidade e prospecção”, pontuou.Ramos também assegura que tais entidades se tornaram uma “mola propulsora” envolvendo os municípios com as grandes indústrias. “Associações, como a Asumas por exemplo, fazem essa interação e interface com as cooperativas. E a central que cuida da comercialização, com o produto já industrializado ou na forma in natura, agregando valor. E quem ganha com isso sempre é o produtor rural, a comunidade e a cooperativa. O resultado é extraordinário dentro desse prisma de aproveitamento”, afirmou.
O dirigente ainda manifesta a importância de iniciativas voltadas à valorização da carne suína, com ações que incentivem o consumo e apresentem ao público a diversidade de cortes e possibilidades de preparo. Outro desafio, ainda segundo Ramos, é superar percepções antigas sobre a proteína.
“É uma das carnes mais saudáveis e as cooperativas vem desenvolvendo programas, inserindo a carne suína na mesa dos brasileiros e apresentando diversos cortes importantes. Temos o bacon, as mantas, as famosas costelinhas consumidas nos principais restaurantes do mundo, então, realmente, o que falta é realmente desmistificar a questão de ainda falarem que a carne suína é de valor inferior, muito pelo contrário”, detalhou.
Por fim, o superintendente comenta que a produção passou por transformações tecnológicas, incluindo avanços na alimentação, manejo, bem-estar animal e aproveitamento de resíduos, fruto também da atuação de cooperativas e outras entidades do setor, com capacitação e orientação aos produtores por meio do Sescoop (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo).
“A criação do século passado era de dejetos. Hoje a ração tem formulação, inovação com produtos de soja que temos em abundância e que fabricam também a ração de bovinos e caprinos, por exemplo. Com os dejetos hoje ocorre o oposto também, já que tem a produção do gás, é reutilizado na adubação ao redor das prossilgas, gerando mais milho, mais soja e sorgo, então, acabou o reclame, está equalizado e com certificação do Ministério da Agricultura. Não há mais críticas”, encerrou o superintendente.
Censo inédito
O ano de 2026 trouxe um diagnóstico inédito e abrangente sobre esta atividade, apontando todo o potencial de expansão em Mato Grosso do Sul. O Censo da Suinocultura foi realizado pela Asumas, com apoio da Hilles Consultoria em Agronegócio, a qual elaborou 70 questões sobre a cadeia produtiva e ouviu 130 produtores, aproximadamente 40% dos suinocultores do Estado.
Tal documento ainda revela um setor altamente tecnológico e com apetite para expandir a produção em mais de 500 mil animais, demandando investimentos projetados de R$ 286,5 milhões em modernização, automação e energia limpa.
Apesar do forte cenário – onde mais de 51% das granjas possuem alto nível tecnológico e a gestão profissional predomina com 89% de mão de obra CLT e 66% de sucessão familiar planejada – o crescimento esbarra em gargalos estruturais. O principal desafio enfrentado pelos produtores é a disponibilidade de integradoras (57,28%), seguido pela escassez de mão de obra e pela necessidade de crédito rural.
Afinal, a ‘baconlogia’ deve agradar o consumidor?
Como se vê, o consumo da carne suína e de seus derivados está na ponta de todo esse processo. Para entender ainda mais essa dinâmica, a reportagem conversou com profissionais que trabalham com tais alimentos. O empresário Renato Morel de Lira, de 39 anos, por exemplo, atua no ramo das lanchonetes “desde que se entende por gente”.
Aos poucos, viu o consumo do bacon ganhar cada vez mais espaço, desde o “lanche raiz” até a versão gourmet e ressalta o fato de chegar a marca da aquisição anual de uma tonelada de bacon em seu estabelecimento.
Em entrevista ao Jornal Midiamax, Renato contou que a lanchonete do pai existe há mais de três décadas e, há 11 anos, ele também abriu a própria. “Aqui se chama Afonso Lanches e a história já tem 38 anos. Tenho fotos, quando criança, na frente do carrinho de lanche, quando meu pai começou fazendo cachorro-quente. Depois ele passou para os lanches e eu estou até hoje. São duas unidades. Está no sangue, eu gosto”, disse.
Neste período, o bacon começou a ganhar espaço, sempre usado nos lanches tradicionais. “Começamos a incrementar alguns deles. Hoje temos lanche com abacaxi e bacon, bacon com geleia de pimenta. E combina demais. Bacon com doce, agridoce, fica muito bom. O bacon, hoje em dia, é um dos ingredientes que mais sai. O x-bacon principalmente, é muito procurado. Eu acredito que, anualmente, chega a sair cerca de uma tonelada de bacon“, ressaltou Renato.
Enquanto fazia compras, o empresário disse que recebeu a oferta para conhecer uma espécie de bacon gourmet, com menos gordura. No entanto, disse que o produto nem o agradou e nem agradaria a clientela, que “gosta da gordurinha”. “Percebi que era, praticamente, só a parte da carne e não tinha aquele gosto de bacon que a gente procura. Para nós, o bom é aquele tradicional, então continuei com o mesmo, porque é o que mais combina com o nosso lanche“, avaliou.
Após tantos anos trabalhando no ramo da alimentação, o empresário comentou que é praticamente impossível ouvir alguma reclamação sobre lanches feitos com bacon. “É bom demais, o pessoal gosta muito. E nós também tomamos muito cuidado com a questão do sal, principalmente, porque já vem temperado da indústria. Às vezes vem um pouco mais salgado, só que a gente sabe como preparar para deixar no ponto“, declarou.
Morel frisou ainda que o aumento do produto foi de 100%. “Hoje o pessoal sai muito mais para comer lanche. E se vende muito lanche, e o bacon acompanha todo este crescimento. Eu também gosto muito de saborear e vejo que não enjoa. Aqui também tem o cachorro-quente com purê e bacon, que sai bastante. E combina demais, posso garantir. E com todo este movimento sobre a carne suína, pode crescer ainda mais. O bacon é a porta de entrada, claro, mas, também estamos estudando fazer um lanche inteiro de panceta crocante. E agora é momento de preparar certinho para dar aquele toque diferente na lanchonete. Vai vir novidade por aí”, concluiu.
FONTE: MIDIAMAX




