O que o esporte mais popular do País tem a ver com o modernismo brasileiro? Como o movimento cultural que buscava a valorização de uma cultura cotidiana brasileira pode se ligar ao esporte, que também veio de fora e rapidamente se tornou popular em todas as classes sociais?
São indagações como essas que constituem as linhas de força de uma nova exposição, que foi inaugurada na sexta-feira, no Museu do Futebol de São Paulo, localizado no Estádio do Pacaembu.
“22 em Campo – 100 anos de Futebol e Modernismo no Brasil” tem curadoria de Guilherme Wisnik e apresenta as ligações, às vezes inusitadas, às vezes surpreendentemente diretas, entre o movimento cultural e o esporte das multidões.
A mostra faz parte da Agenda Tarsila, que comemora o centenário da Semana de 22 nos equipamentos culturais da capital paulista. A exposição parte de uma brincadeira com os números: 22 é o ano em que se realizou a Semana de Arte Moderna e, agora, de seu centenário.
É também o número de jogadores em campo em uma partida oficial: 22 atletas que se movem ocupando o espaço delimitado pelas quatro linhas, criando narrativas emocionantes ao longo dos 90 minutos de jogo. Por isso, a mostra tem 22 módulos dedicados a 22 temas escolhidos para relacionar os anos de 1922 e 2022, o esporte e o modernismo.
MÓDULOS
Os módulos são ilustrados por fotografias e vídeos de época, áudios históricos e outros gravados por atores, interpretando textos do modernismo relacionados ao futebol.
Responsável pela identidade visual da mostra, o designer Kiko Farkas assina diversas criações que foram feitas especialmente para “22 em Campo – 100 anos de Futebol e Modernismo no Brasil”, que tem cenografia concebida por Álvaro Razuk.
“No mesmo ano, enquanto em fevereiro os artistas modernistas agitavam o Theatro Municipal, em setembro uma multidão se reunia ao lado, no Vale do Anhangabaú para receber notícias do Campeonato Sulamericano de Futebol, que acontecia no Rio de Janeiro”, conta Guilherme Wisnik.
“Os repórteres do jornal O Estado colocavam o placar na fachada do prédio. Assim, no ‘ano zero’ do modernismo brasileiro, a seleção masculina de futebol se sagrava bicampeã em território nacional”, afirma o curador.
ESCALAÇÃO
A bola, o goleiro, o jogador Arthur Friedenreich (1892-1969), o goleiro Marcos Carneiro de Mendonça (1894-1988), o futebol de mulheres e o estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, são alguns dos temas do universo futebolístico que foram escalados.
No time do modernismo e da cultura, jogam Tarsila do Amaral (1886-1973) e Oswald de Andrade (1890-1954), Mário de Andrade (1893-1945), o Theatro Municipal de São Paulo, o músico Pixinguinha (1897-1973) e a tela “Operários” (1933), de Tarsila. Mas nesse jogo há mais de dança do que de competição, e o visitante se surpreenderá com as ligações possíveis entre os dois universos.
MACUNAÍMA E GARRINCHA
No módulo dedicado à bola, por exemplo, será possível ouvir áudios com a declamação de poemas de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Cassiano Ricardo (1895-1974) dedicados ao fascinante objeto esférico que é símbolo do jogo. Lado a lado, uma bola original de 1922 e a bola oficial da Copa do Catar, deste ano, materializam a evolução da tecnologia esportiva nesses cem anos.
Em outro módulo, a exposição reflete sobre as relações entre o jogador Garrincha (1933-1983) e o personagem Macunaíma (1928), criado por Mário de Andrade, inspirado em uma entidade indígena.
Conhecido como o “anjo das pernas tortas”, Garrincha era descendente do povo Fulni-ô, de Alagoas e Pernambuco, e encantou o mundo com os dribles desconcertantes e o jeito alegre de jogar, uma mistura ambígua de malícia e inocência que também está presente em “Macunaíma”.
TARSILA TORCEDORA
A exposição também recupera como o futebol esteve presente na própria Semana de 22: na abertura do evento, o escritor Menotti Del Pichia (1892-1988) cita o jogador Friedenreich em seu discurso.
Mário de Andrade também dedica um poema à primeira grande estrela do futebol brasileiro e, enquanto Oswald de Andrade escreve alguns versos sobre futebol, a pintora Tarsila do Amaral registra em uma crônica sua experiência como torcedora em um Brasil x Argentina no estádio Parque Antártica.
Ao fim da mostra, os visitantes terão elementos para pensar em como o modernismo e o futebol estão relacionados à construção da ideia do que é “ser brasileiro”, com todas as ambiguidades, complexidades e contradições. “22 em Campo – 100 anos de Futebol e Modernismo no Brasil” fica em cartaz até 29 de janeiro de 2023.
O MUSEU
Concebido pela Fundação Roberto Marinho e administrado pela Organização Social IDBrasil, o Museu do Futebol funciona em uma área de 6.900 m² no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu.
A instituição foi inaugurada em 29 de setembro de 2008 e é um dos museus mais visitados do País. Sua exposição principal, distribuída em 15 salas temáticas, narra de forma lúdica e interativa como o futebol chegou ao Brasil e se tornou parte da nossa história e da nossa cultura.
FONTE: CORREIO DO ESTADO




