Em meio às investigações que apuram suspeitas de fraudes e desvios de recursos na Santa Casa de Campo Grande, o hospital oficializou, nesta quarta-feira (23), a nova gestão que comandará a instituição até 2028. Heitor Freire assumirá a presidência, enquanto o cirurgião Luiz Alberto Kanamura ficará à frente da superintendência hospitalar. A posse ocorre pouco mais de uma semana após a prisão da então presidente, Alir Terra Lima, durante a Operação Antidotum.

Com trajetória de 33 anos como associado à Santa Casa, Freire já ocupou os cargos de presidente, vice-presidente e secretário. Após o afastamento de Alir, a diretoria se reuniu e indicou Freire para disputar a presidência da instituição. Ele é candidato único à eleição marcada para a próxima segunda-feira (28) e, com isso, deve ser confirmado no cargo para o mandato até 2028.

“Neste momento, isso é uma emergência, uma situação que se apresentou, e nós estamos aqui para contê-la. Agora vamos avaliar o que está acontecendo. Temos uma equipe altamente qualificada, nosso superintendente, e nossa diretoria também está junta. Vamos unir as forças para resolver a situação”, disse.

A cerimônia estava prevista para ser conduzida pelo presidente interino e atual vice-presidente, Heitor Scheibeler. No entanto, ele não compareceu, e o ato foi conduzido pelo diretor-secretário adjunto, Ivan Araújo Brandão.

Luiz Kanamura assume superintendência

Na nova estrutura, o cirurgião cardiovascular Luiz Alberto Hiroki Kanamura, empossado hoje, assume a superintendência hospitalar. Com 35 anos de atuação na Santa Casa, ele já passou por diferentes funções assistenciais e administrativas, como a chefia do pronto-socorro, residência de cirurgia geral, CTI e ambulatório, além dos cargos de diretor clínico, diretor técnico e superintendente.

“Praticamente passei por todas as funções de gestão assistencial e algumas de gestão administrativa na Santa Casa. Acredito que conheço bem o hospital”, afirmou.

Para Kanamura, o principal desafio é a reconstrução da confiança da população na instituição. “Quando falo em dificuldade, não é só financeira. Temos dificuldade de credibilidade, dificuldade de fazer com que a sociedade confie”, declarou.

O novo superintendente também defendeu uma reorganização da atuação da Santa Casa dentro da rede pública de saúde, com concentração dos atendimentos nas áreas consideradas estratégicas para o hospital, como politrauma, neurologia e neurocirurgia, cardiologia, vascular e queimados.

“Não estamos falando em mudar a Santa Casa. A Santa Casa está aí. Precisamos estruturá-la para continuar atendendo bem os pacientes, ser transparente e prestar atendimento nas áreas em que ela efetivamente é necessária”, afirmou.

A ideia, segundo ele, é estabelecer uma nova forma de regulação para os demais atendimentos, envolvendo os municípios, as unidades da rede e os demais serviços de saúde.

Estado cobra redefinição da relação com hospital

A mudança na administração ocorre também em meio a uma discussão sobre o papel da Santa Casa dentro da rede pública e a sua relação financeira com o Estado.

Presente na posse, o secretário de Estado de Saúde, Maurício Simões, afirmou que o governo pretende manter a parceria com o hospital, mas defendeu que os recursos sejam direcionados para os serviços considerados prioritários e compatíveis com a vocação da instituição.

“Precisamos, sim, financiar bem aquilo que é a vocação deste hospital e que representa uma grande necessidade para os entes”, afirmou.

Segundo Simões, existem procedimentos que podem ser realizados por outras unidades da rede, com maior especialização e menor custo. Para ele, a Santa Casa deve concentrar esforços em sua atuação histórica. Apesar disso, o secretário afirmou que não existe, por parte do Estado, intenção de intervir na gestão da instituição.

“Nós queremos ser parceiros, mas só podemos ser parceiros daquilo que conseguimos financiar e que representa uma necessidade para o Estado”, declarou.

Simões ainda avaliou que o fato de negociações anteriores terem sido levadas à Justiça contribuiu para o distanciamento entre as partes. “É preciso que encontremos uma linha de negociação, porque, depois que toda a nossa negociação foi levada para o Judiciário, nós só nos distanciamos”, afirmou.

Ministério Público terá acompanhamento da gestão

Outro ponto destacado pela nova administração é a relação com o Ministério Público, que acompanha as medidas adotadas após a operação.

Freire afirmou que a Santa Casa pretende atender às demandas do órgão. “Nós vamos atender sempre às demandas do Ministério Público. O que precisar ser feito, nós temos condições de cumprir. Nossa obrigação é cumprir esse trabalho”, disse.

Kanamura também afirmou que a gestão deverá prestar contas regularmente, tanto sobre os indicadores assistenciais quanto sobre a situação financeira.

“Nós temos a responsabilidade de oficiá-los, demonstrar e prestar contas não só da parte assistencial, com indicadores, mas também da parte financeira. Eles devem nos acompanhar de perto, com relatórios mensais”, afirmou.

Operação afastou antiga direção da Santa Casa

A nova gestão assume após a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).

A ação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO). Entre os presos, estava a então presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, além de integrantes e ex-integrantes da direção do hospital e um empresário.Segundo as investigações, o grupo teria atuado em um esquema envolvendo um contrato para digitalização de prontuários. O acordo previa R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Conforme o MPMS, somente no primeiro ano, o desvio teria chegado a R$ 1,4 milhão.

As investigações também apontaram irregularidades em contratos da Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao mesmo grupo. Segundo o MPMS, somente em 2025, os pagamentos chegaram a R$ 9,6 milhões, com prejuízo estimado em pelo menos R$ 3,5 milhões. O total do eventual prejuízo à Santa Casa ainda é investigado.

 

FONTE: MIDIAMAX